[de Cristina & Rui Manuel Amaral]
«Ontem, enquanto descascava as ervilhas e as batatas novas para o
jantar, lembrei-me do segundo tema para as minhas teses irrevelantes
sobre cinema*. Nada mais nada menos do que: "A Influência das Batatas
no Cinema Francês". Não estou a brincar, o tema é arrojado mas dá para
mais de quinhentas páginas de análise profunda. Cem para "Os
Respigadores e a Respigadora" de Agnès Varda, cem para "Les Enfants" de
Marguerite Duras, cem para "L'Argent" de Robert Bresson (três filmes
que muito estimo) e ainda uma introdução para explicar que as batatas
vieram da América (estão as ver as possibilidades ideológicas?), entre
outros considerandos científicos e poéticos. Tudo isto porque não me
sai da cabeça a cena do último filme de Bresson em que a senhora de
cabelos grisalhos vai ao quintal, pega numa pá, abre uns buracos na
terra e retira algumas batatas para o avental. Não há diálogos nem
música, só as imagens e os sons reais (neste filme o som é, digamos,
"hiperreal", sempre mais intenso do que na realidade) e no entanto
creio que está por aí a chave do filme.
Talvez substitua a palavra
batata, demasiado vulgar, por tubérculo que é bastante feia mas garante
(ou pelo menos assim parece) mais seriedade ao trabalho.
Cheguei
ao fim da tarefa com as mãos um bocado esfaceladas, por causa da pele,
tão fina e tão difícil de raspar, das batatas novas.»
Autor da foto: JoaoLuc









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