dezembro | 23h:59m:57s

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pergunto-me: o que é o Dezembro?
como observador destas
últimas semanas, Dezembro lembra-me aqueles preciosos três últimos segundos de
vida antes de uma bomba rebentar. uma bomba que ninguém consegue desarmar mas
que toda a gente sabe a sua localização. ninguém tem o código para desarmar o
tempo, todos olham a contagem decrescente durante esses três segundos. enquanto
olham, antevendo a explosão, as pessoas vão dando as mãos não por
solidariedade, mas para se sentirem um pouco menos sozinhas na passagem para o
outro lado. ao outro lado, tanto podemos chamar de morte ou esperança, o som
final é o mesmo.
Dezembro é um silêncio que ninguém ouve porque tudo está em
festa, uma catarse orgástica e autista que faz com que as flores plantadas em
nós durante o tempo em que estivemos no útero comecem a desabrochar. o barulho da
eclosão é inebriante, ainda mais intenso quando se entra nos últimos sessenta
segundos. durante cinquenta e sete segundos (antes dos três finais) tentamos
esquecer a solidão mostrando então as flores que em breve deixarão as suas
sementes cair. todos sorrimos, mesmo quem tem dentes amarelos ou podres,
sorrimos. as sementes caem sobre a terra, a passagem fica concluída.
agora restam os últimos três segundos, silêncio, o fôlego
sustido bem no interior dos pulmões para aumentar o prazer das memórias. de
mãos dadas, não importa quem dormiu com quem, o importante é sentir as mãos nas
mãos de alguém como que um testemunho enquanto se faz um último pedido à nossa
fé interior, porque todos acabamos deitados sob a mesma terra e com o mesmo
medo.





