« novembro 2005 | main page blog | janeiro 2006 »

dezembro | 23h:59m:57s

© 2005 nelson d'aires

© 2005 direitos reservados ao autor nelson d'aires

pergunto-me: o que é o Dezembro?

como observador destas últimas semanas, Dezembro lembra-me aqueles preciosos três últimos segundos de vida antes de uma bomba rebentar. uma bomba que ninguém consegue desarmar mas que toda a gente sabe a sua localização. ninguém tem o código para desarmar o tempo, todos olham a contagem decrescente durante esses três segundos. enquanto olham, antevendo a explosão, as pessoas vão dando as mãos não por solidariedade, mas para se sentirem um pouco menos sozinhas na passagem para o outro lado. ao outro lado, tanto podemos chamar de morte ou esperança, o som final é o mesmo. 

Dezembro é um silêncio que ninguém ouve porque tudo está em festa, uma catarse orgástica e autista que faz com que as flores plantadas em nós durante o tempo em que estivemos no útero comecem a desabrochar. o barulho da eclosão é inebriante, ainda mais intenso quando se entra nos últimos sessenta segundos. durante cinquenta e sete segundos (antes dos três finais) tentamos esquecer a solidão mostrando então as flores que em breve deixarão as suas sementes cair. todos sorrimos, mesmo quem tem dentes amarelos ou podres, sorrimos. as sementes caem sobre a terra, a passagem fica concluída.
 
agora restam os últimos três segundos, silêncio, o fôlego sustido bem no interior dos pulmões para aumentar o prazer das memórias. de mãos dadas, não importa quem dormiu com quem, o importante é sentir as mãos nas mãos de alguém como que um testemunho enquanto se faz um último pedido à nossa fé interior, porque todos acabamos deitados sob a mesma terra e com o mesmo medo. 

madrugada de natal

© 2005 nelson d'aires

© 2005 direitos reservados ao autor nelson d'aires

passei a ceia de natal ao relento junto a um pequeno grupo de pessoas que há muitos meses passam dia e noite a guardar um portão para que nenhum camião carregue as máquinas de uma empresa de calçado que fechou as portas sem pagar salários e direitos aos seus trabalhadores. depois, veio um outro grupo render o grupo onde eu estava inserido. uma das pessoas do pequeno grupo que foi rendido convidou-me para ir beber uma tacinha (sim foi esta a palavra utilizada por quem me dirigiu o convite) de espumante com a sua família antes do filho pequenino abrir os presentes. eu fui. não que recusasse primeiro, porque recusei. o convite foi sincero por isso aceitei depois de ter recusado. talvez por ser natal não fiz nenhuma fotografia, não tirei sequer nenhuma das câmaras da minha mochila, é um paradoxo eu sei. todavia, observei o mais que pude. registei o mais que consegui, pequenas coisas, sempre. antes da abertura dos presentes desculpei-me e retirei-me, a partilha dos presentes é uma coisa que achei ser intima demais para eu participar, por isso retirei-me antes da meia noite. voltei à estrada. e foi depois na estrada que fiz então a única fotografia da noite. uma cabine telefónica na berma da estrada, foi a única coisa nessa noite que me fez parar o carro, tirar a câmara de dentro da mochila e fazer um único clique como quem disca um número sem errar, sabendo exactamente a quem telefonar nesta noite tão silenciosa, mas que por alguma razão depois não o faz porque sabe que no outro lado da linha também há o momento da troca de presentes, há uma intimidade que não deve ser perturbada por ninguém, nem mesmo por um morto.


dia e noite. estas foram as duas únicas fotografias que fiz do natal.

procuro o Natal

© 2003 direitos reservados ao autor

© 2003 direitos reservados ao autor nelson d'aires


ao longo de todo um ano há quem espere ansiosamente o natal, assim como também há quem tenta organizar o seu esquecimento. pelo meio existem mediadores para que as pessoas que tentam esquecer não se abandonem e as que esperam impacientes não sofram uma desilusão.

tudo isto existe não só nas casas de todos nós, mas também nas ruas, hospitais, lares de terceira idade, orfanatos, prisões, etc. em suma, existe onde o Homem está carente de afecto.

procuro o Natal nos lugares de mediação acima mencionados. na noite da ceia de natal há magia que acontece, sem sabermos explicar, dentro de nós as tréguas acontecem, ainda que por horas é certo, mas acontecem. o porquê? não sei. e não sei pela simples razão de que o poder está dentro de nós e não num calendário. talvez seja isto. talvez seja pelo facto do Homem não conseguir partilhar todos os dias porque nos esgota os recursos emocionais. mas se há um dia colectivo onde deixámos de pensar em nós, esse dia é o Natal.

convenhamos que todos nós somos mediadores, mas o que eu procuro são aqueles que para além das suas famílias atendem ainda uma sopa de natal para os pobres, oferta de brinquedos a crianças órfãs, companhia a quem não tem morada, companhia a quem está em estado de coma.

se você é um destes mediadores, ou se por ventura não o é, mas conhece alguém que o seja, e que gostaria de ver registado sob a forma de fotografias o agradável silêncio das tréguas de uma destas acções, peço o favor que me contacte. na noite de 24 de Dezembro e no dia de 25 de Dezembro, disponibilizo assim a minha partilha também, não importa em que ponto do país. pela parte que me toca, seria um prazer enorme oferecer uma fotografia minha a quem em paz esteve, por uns momentos que seja.

por favor contacte-me. ou então que divulgue.

obrigado

nelson d’aires

p.s. resolvi fazer este pedido aqui, porque dos vários que eu tenho feito (não interessa agora a quem) têm-me sido recusados. não levo a mal, afinal de contas sou um desconhecido sem carteira de jornalista.

maria do rosário pedreira

© 2005, nelson d'aires
Maria do Rosário Pedreira
© 2005 direitos reservados ao autor nelson d'aires

"Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar."

De "O Canto do Vento nos Ciprestes"
Maria do Rosário Pedreira



obs.: a fotografia acima exposta não  feita a pensar na "ilustração" do poema. escolhi este poema apenas para divulgar um pouco da obra desta poetisa.

no passado mês de maio, a convite do poeta valter hugo mãe, fiz uns retratos de todos os escritores e poetas convidados para o 2.º encontro de poesia de Vila do Conde. nenhum retrato foi planeado antecipadamente, todos eles foram "desenvolvidos" no e num momento pouco maior que alguns minutos. aqui, com a Maria do Rosário Pedreira
, a sessão foi rápida, aproveitei uma visita efectuada ao Solar de São Roquef, onde estava patente a exposição/instalação "Revisitations" de Christoph Girardet e Matthias Müller.

mais para a frente irei aqui apresentar novos retratos de todos os escritores convidados para o 2.º encontro de poesia de Vila do Conde.

guardiães do tempo

© nelson d'aires
guardiães do tempo
© 2003/2004 direitos reservados ao autor nelson d'aires

(para ver a fotografia acima com maior resolução é favor clicar na mesma)

 

actualizo o meu site ainda com trabalhos passados. “guardiães do tempo” foi desenvolvido durante o final do ano de dois e mil três e o início de dois mil e quatro. o conceito é simples, com a minha câmara fotográfica ao ombro propus-me a conhecer pessoas com vidas que até então estiveram sempre à minha margem. inconscientemente quis saber quais as pessoas que estão receptivas a um estranho. quem tinha guardado dentro de si um pouco de tempo para olhar-me, receber-me e interrogar-me.

com toda a desconfiança/medo que paira no ar, é cada vez mais difícil dar de beber a um estranho sem pensar que a água é um recurso natural valioso. e quem tinha esse tempo para me dar? a resposta (sempre incompleta) está nas fotografias que fiz e que compõem este pequeno trabalho. é uma população velha que sobreviveu à ditadura, e que sem saber tentam agora sobreviver aos efeitos da globalização, que vive a solidão dos raios de sol, que está à janela para olhar quem passa na esperança de que lhes vejam as rugas. pessoas que cumprem tradições, que cumprem a mais simples (e irónica de todas), viver.
 
este não é um retrato de Portugal, mas podia ser. todas estas pessoas guardam dentro de si um pedaço de história actual.


obs. a convite, este trabalho esteve exposto no decorrer de 2005 na Fnac GaiaShopping e na Fnac Almada.

 

josé luís peixoto

© 2005, nelson d'aires
josé luís peixoto
© 2005 direitos reservados ao autor nelson d'aires

(para ver a fotografia acima com maior resolução é favor clicar na mesma)


"não. ninguém saberá o que aconteceu.
estou muito cansado.
apetece-me dormir até morrer"

josé luís peixoto



no passado mês de maio, a convite do poeta valter hugo mãe, fiz uns retratos de todos os escritores e poetas convidados para o 2.º encontro de poesia de Vila do Conde. nenhum retrato foi planeado antecipadamente, todos eles foram "desenvolvidos" no e num momento pouco maior que alguns minutos. aqui, com o José Luís Peixoto, a sessão foi rápida, foi só mesmo achar o fundo/ambiente existente nas redondezas, olhar para a casa, pensar nela e ver o lugar que os mortos nela habitam, desenhar o boneco na porta e depois ir sem demora chamar o José Luís. também ele estava com a sua pressa estrangulada pelo tempo.

mais para a frente irei aqui apresentar os retratos de todos os escritores convidados para o 2.º encontro de poesia de Vila do Conde.

 

transmutações

Transmutacões
(para ver a fotografia acima com maior resolução é favor clicar na mesma)

a vida (evolução das espécies e também das pedras) constrói-se com base no movimento aleatório e caótico das colisões entre corpos que deambulam no limbo do quotidiano. com o choque das colisões criam-se novas cadeias genéticas que asseguram a continuidade da transmutação das emoções e das espécies. os embates nem sempre são suaves, na maioria das vezes são dolorosos. quando se fala da colisão fala-se também na cedência de uma das partes, só assim se formam novos corpos, novas formas de vida. tudo isto encerra uma forma de dor para a qual não existe anestesia. nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

com base no que acima ligeiramente escrevi, início um novo trabalho pessoal: transmutações. proponho-me fotografar quem queira registar a sua colisão, a mudança que daí sobrevém. não me deixo enganar que a fotografia, neste tipo de choques, apenas roça o aparente e eu sei que o visível não mostra a cor e a solidão que o sangue possuí quando tem dor.

como exemplo e ponto de partida retratei-me a mim próprio. agora gostaria de poder retratar outras pessoas que são novas formas de vida. caso você seja uma dessas pessoas e queira participar neste projecto agradecia que me contactasse. este projecto não envolve custos para quem participa, e no fim ofereço sempre a primeira cópia ao próprio/a.

obrigado

compromisso de honra

esta foto-reportagem foi uma das primeiras que fiz, foi a catorze de maio de dois mil e quatro. deixo-a aqui como testemunho disso mesmo.

© 2004, nelson d'aires

compromisso de honra
© 2004 direitos reservados ao autor nelson d'aires