miúdos

centro comercial das caxinas, 30-jan
© 2006 direitos reservados ao autor nelson d'aires
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hoje recuei no tempo até parar no exacto dia em que fiz doze anos. lembro-me de nesse dia faltar a todas as aulas para andar a vaguear pelas ruas das Caxinas. lembro-me bem que no meu plano precisava de um dia inteiro para aquelas ruas para mim desconhecidas, pois nesse dia inteiro estava também a margem de tempo que eu precisaria para reencontrar o caminho até à paragem de autocarro de regresso a casa. com doze anos usava cheio de orgulho camisas feitas pela minha mãe com os panos que eu na altura escolhia sempre que íamos juntos à feira dos tecidos fazer compras. naquele dia quase posso jurar que a camisa que usava vestida no meu frágil e pequeno corpo era aquela já muito coçada e desbotada com uns aviões de início de século como padrão figurativo. a camisa não decide esta minha breve memória, mas merda como eu adorava aquela camisa de cor cinzenta feita pelas mãos da minha mãe.
lembro-me que nesta aventura percorria as ruas com cuidado,
evitando todas aquelas onde rapazes nas suas vozes levantadas de marinheiros
ébrios em terra eram maiores do que eu. evitar uma rua significava por vezes
ter que optar por uma outra ainda mais desconhecida, mas desde que estivesse deserta
tudo bem. de fuga em fuga acabei por entrar num centro comercial onde à
entrada estavam muitos homens e algumas mulheres, todos eles com frio, olhos
vidrados e rostos macilentos.
hoje, passados dezanove anos regressei ao mesmo centro
comercial pela primeira vez, desta vez sem medo. nas portas e pelos corredores
já não estão os mesmos homens e mulheres a aquecerem o corpo com colheres
aquecidas e injecções para fervilhar o sangue. muitas lojas já fecharam e
servem de montra ao tempo, acumulam o pó sem haver saldos que o limpem. algumas
ainda sobrevivem. pelas paredes encontram-se algumas declarações de amor, todas
elas cheias de emergência e de abandono. naquele lugar procurei com esperança
um cinema. sim, se ali houvesse um cinema seria o único onde teria hoje ido ver
um filme. se ali houvesse um cinema o mais certo seria só para adultos, as
crianças não gostam de centros comerciais sem McDonald’s. e convenhamos, a
pornografia quando feita com o consentimento de todas as partes envolvidas é um
serviço público muito útil.
não sei de onde surgiu a vontade do cinema, talvez
tenha sido de ter feito algumas fotografias das muitas declarações de amor,
pois lembro-me que ao fazer uma fotografia veio-me à memória uma linha de diálogo
do filme “The Dreamers”:
“I think you prefer when the world "together" means not "a million," but just two.”
talvez por ter me lembrado deste filme, desta frase exacta, a urgência do cinema
percorreu-me o corpo. foi com alguma desilusão que rapidamente me apercebi que
este centro comercial não tinha cinema. pois se tivesse teria ido a correr ao talho
da entrada e sairia de lá com uma saca de plástico e mais algumas gramas na mão.
teria depois entrado no cinema, e enquanto assistia ao filme o sangue dos miúdos
comprados no talho escorreria livre da saca de plástico deixada a meus pés pelo chão fora.










