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Checkpoint

Checkpoint_dvd foi (acho que) em Abril de 2005 que vi pela primeira vez o documentário “Checkpoint” na Dois (RTP2).

“An ambulance is stopped, and the sick people inside brought out to explain their ailments. A mother is separated from her very young children. Young Palestinians laugh and throw snowballs at Israeli soldiers, who jovially respond in kind. One Israeli soldier harasses a pretty Palestinian girl. Another refers to the Arabs as "animals," and suggests the documentary crew is making a film for the Discovery Channel.”

são construídos assim 80 minutos (58 minutos na TV) de puro bloqueio, tanto para os palestinianos como também para quem é espectador a salvo sentado em qualquer sala de cinema ou sofá. durante dois anos (2001 a 2003) Yoav Shamir filmou (dirigiu) um documentário sem narrador (voz off), sem música para produzir emoções ficcionais ou que pudesse sobrepor-se à voz de quem tenta passar pelos postos de controlo todos os dias para viver.

“Yoav Shamir's documentary that quietly observes what goes on at Israeli checkpoints is a good example of what we're missing on our own screens of the wealth of international public TV. This film, which took top awards at three film festivals, and is now being used by the Israeli army to correct abusive behaviors, is still not available in theaters or video stores, and hasn't shown on TV. The audience was eager to discuss after watching the film.”

Checkpoint


o que mais me impressionou neste documentário foi a frieza e a incompreensão dos soldados (limitando-se a cumprirem ordens, diziam) israelitas. impressionou-me ver soldados que não passam ainda de miúdos com 18 anos (alguns menos, alguns mais) de arma e poder nas mãos. muitos deles desorientados, muitos deles intransponíveis, poucos deles compreensíveis, muitos deles queriam era estar em casa. no fundo todos eles muito novos para terem tanto poder. 

18375_checkpoint ““Checkpoint,” a terrific new Israeli documentary opening for a weeklong run at Facets Cinematheque, takes us to ground zero in one of the world's main trouble spots: the occupied Palestinian territories in Bethlehem , Ramallah and elsewhere. Without any commentary or narration, using only the cold hard gaze of the camera and masterful editing by director Yoav Shamir and his team, this movie tells us more about what's happening there than piles of “learned” commentary and hours of cable news babble ever could.”

aconselho vivamente que hoje vejam na Dois (às 22:30) este documentário. e já agora gostaria que não pensassem em judeus ou em árabes, mas sim em pessoas e que também não façam um rápido julgamento (ou até mesmo que não façam nenhum julgamento), até porque este conflito tem raízes e desdobramentos muito profundos, ainda assim é claro que existem culpados, mas será isso o mais importante?

valter hugo mãe

Vhm
valter hugo mãe
© 2006, nelson d’aires (fotografia)

 

a convite do, poeta e escritor, valter hugo mãe é natural que daqui por algumas semanas possam ver algum destes meus (ou outros que aqui não mostro) retratos do valter publicados na nossa imprensa.
a editora QuidNovi está prestes a lançar o novo romance do valter, “O Remorso de Baltazar Serapião”, que algures no interior estará também um destes (ou outro que aqui não mostro) retratos do autor para as pessoas que gostem de ligar o nome do escritor a um rosto.

 

valter hugo mãe
valter hugo mãe
© 2006, nelson d’aires (fotografia)
(clique na fotografia para ver com maior resolução)

 

partilha e conversa

© 2003, nelson d'aires
2003 - São Bartolomeu do Mar

Hoje, a convite de uma amiga minha (obrigado Ana Pereira), tive a oportunidade de ir ao E.E.S.E.I.G (aqui em Vila do Conde) falar sobre fotografia documental a uma turma com alunos de idades compreendidas entre os 18 e os 20. Nunca tinha feito nada do género, ainda assim sabia que ia gostar de o fazer, e gostei. Não fui armado com tópicos nem com frases feitas (embora na véspera tivesse pensado no que poderia dizer acerca da fotografia documental e também do meu trabalho), mas sim com boa disposição, bastante informal e acima de tudo com vontade de partilhar um pouco da minha ainda breve experiência.

© 2004, nelson d'aires
2004 - Gémeos, Comenda (Setúbal)

Quando cheguei apresentei-me apenas com o meu nome e de imediato perguntei quem comprava revistas de informação ou jornais diários. A resposta foi unânime, ninguém (mas é claro que os alunos conheciam revistas tais como a Visão ou National Geographic). Após terem-me dito que ninguém comprava revistas disse-lhes em tom de graça que esse é o motivo porque é tão difícil a sobrevivência de um fotógrafo freelance que trabalha na produção de histórias. Disse-lhes mesmo que era por isso que eu mais tarde ou mais cedo irei passar “fome” e que teria de arranjar uma outra forma de subsistência e financiamento para este meu caminho.

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Homeless Children of Ukraine

decidi abrir neste weblog uma categoria (links para documentários de outros fotógrafos) para divulgar alguns trabalhos de fotografia documental que eu considero importantes para nos interrogarmos um pouco sobre o mundo onde vivemos nos nossos dias. largar o umbigo e divulgar estes trabalhos é cada vez mais importante, e eu com isto espero contribuir um pouco para isso.

Homeless Children of Ukraine,fotógrafo David
Gillanders

"Homeless Children of Ukraine" do fotógrafo David Gillanders (freelance) é a minha primeira escolha porque as suas fotografias são apenas uma parte de um retrato possível de uma realidade dura onde a inocência não existe porque quando se foge não se consegue correr com os bolsos cheios de coisas que não sobrevivam nas ruas.

esta minha escolha tem também um outro motivo, chama-se “imigração”. Portugal foi (e continua a ser) escolhido por muitos imigrantes ucranianos para recomeçar, reconstruir o possível de uma vida melhor. nem sempre as razões da imigração servem o enriquecimento de quem emigra do seu país, para muitos (talvez a maioria) trata-se de uma frágil garantia de sobrevivência. na empresa de construção onde trabalhei (antes de me ter despedido para abraçar a fotografia documental como freelance) tive a oportunidade de lidar com muitos imigrantes de leste (nomeadamente Ucrânia), eles faziam parte das equipas que estavam sob a direcção de algumas pequenas obras ao meu encargo. sempre que tinha a oportunidade conversava com esses trabalhadores para saber quais as causas das suas partidas. em quase todos eles havia uma família e filhos como principal causa. 

ao ver estas fotografias foi imediata a lembrança dos filhos que nunca conheci dos “meus” trabalhadores imigrantes. é tão simples e duro, pensei, a maioria desta geração de imigrantes parte (mas sem abandonar) os filhos e os conjugues para que estes não passem fome e que assim um dia não fujam também para as ruas porque em casa a fome altera os nomes, as crianças deixam de ser crianças, os pais deixam de ser pais e só a fome não altera o nome, porque essa alimenta-se sempre gorda dos ossos de quem não come.

talvez depois de olharem para estas fotografias, de lerem também (fundamental ler) o rodapé de cada fotografia, consigam entender melhor e serem mais tolerantes para com todos os imigrantes que escolheram Portugal como uma possível oportunidade de alimento.


Homeless Children of Ukraine*


Homeless Children of Ukraine,fotógrafo David
Gillanders

" KHARKIV, UKRAINE - NOVEMBER 10 2005: Pictured is 12   month old Vova who has been abandoned by his family. He has TB and is   currently being cared for in Kharkiv TB dispensary but will be transferred to   a state orphanage.  Summary: Nobody knows exactly how many children are homeless   or living on the streets of Ukraine. Estimates range from 50,000 to 3   million. Many children living on the streets are regular drug useres,   progressing from using glue to injecting lethal homemade concoctions of   effidrine and vinegar from as young as 6 years old. Levels of HIV and Aids   have reached epidemic proportions in Ukraine. The World Health Organisation   and the UN estimate that 1.4 per cent of the population of 48 million is   infected. Last year 2,025 new cases of HIV positive children were registered."

*um trabalho de David Gillanders

oportunidade desperdiçada

© 2005, nelson d'aires
22/08/2006 - populares em frente de fogo descontrolada na freguesia de Carreira do Mato, Abrantes

© 2005, nelson d'aires
22/08/2006 - populares aflitos com chamas que avançavam a grande velocidade para as suas casas na freguesia de Chainça, Abrantes

© 2005, nelson d'aires
22/08/2006 - populares aflitos com chamas que avançavam a grande velocidade para as suas casas na freguesia de Chainça, Abrantes

trabalhar por amor e dedicação é uma coisa muito bonita, toda a gente admira (pena que admiração não encha barriga) quem consegue largar a certeza de um ordenado simpático e certo por mês pela incerteza de um sonho que não passa pelo reconhecimento mas sim apenas do dar a contar histórias daquilo que somos feitos no melhor e também no pior. 

para o efeito escolhi a fotografia para o suporte porque penso que é nela onde me exprimo melhor. mas a verdade é simples, eu quero que a Fotografia se foda. se eu não fotografasse faria por aprender a escrever como quem vê, ouve e sente e contaria as histórias de quem precisa com lápis e papel. se não conseguisse aprender a escrever limparia a minha voz e praticaria a mestria de contar histórias para que me bastasse um simples megafone para sair à rua e gritar para quem quisesse parar e por uma vez ouvir sem medo aquele estranho homem descalço que grita nas ruas histórias deste mundo e que não pede esmolas, apenas que ouçam. ao dizer isto concerteza que já perceberam que para além da fotogrfia o que o quero mesmo é um empenho humano na abordagem ao mundo.

gosto muito de ainda carregar comigo esta costela da terra do nunca. gosto muito deste corpo de criança. gosto muito destes meus olhos de esperança. gosto muito desta minha boa disponibilidade. gostaria muito que alguém me desse uma oportunidade. 

já disse que quero que a Fotografia se foda? é verdade. e esta afirmação não é nenhuma manobra subversiva de marketing a meu favor. não é tão pouco o abandono às minhas câmaras nem desistência a um modo de vida para os outros. tenho andado a reflectir e aos poucos vou descobrindo que menos é mais, que se pensar menos em Fotografia mais tempo tenho para olhar em volta e fotografar, se pensar menos em mim mais tempo tenho para descobrir/fotografar quem está esquecido e anónimo.

este mundo sobrevive muito bem sem que a Fotografia seja teorizada (é aqui que quero que ela se foda, mesmo que eu me inclua). mas este mundo sobreviveria mal se não houvessem fotografias que nos testemunhassem no nosso melhor e também no nosso pior.

ainda assim fiquei triste por não ter concorrido este ano (pela primeira vez) ao prémio de fotojornalismo Visão patrocinado em exclusivo pelo BES. triste porque acabo de perceber que desperdicei uma oportunidade. o mais certo era não ganhar nada, mas só o facto de haver quem dá oportunidade tem por si só um grande valor. e acabo de perceber que não posso perder o luxo de não aproveitar todas as oportunidades para financiar as histórias que quero investigar para depois as contar a custo zero.

km 31 | 03182006

nem sempre preciso que um dia me acabe para saber como o arquivar.

KM31 | 03182006
km 31

© 2006, nelson d’aires
(clique na fotografia para ver com maior resolução)

o km 31 continua, ainda. digo ainda porque é também da natureza humana um dia desistir sem que isso seja uma explosão, um acontecimento perceptível ao mundo.
uns amigos cá de Vila do Conde perguntaram-me há pouco tempo porque é que eu neste projecto pessoal abandonei as pessoas. eu não abandonei as pessoas, as fotografias do km 31 são precisamente transformadas pelas pessoas, amigas ou anónimas, a maioria anónimas. neste projecto utilizo sempre a mesma câmara fotográfica e a mesma objectiva (50mm), porque aos dias não os podemos esticar com uma grande angular. aos dias não temos o poder de permanecer num lugar seguro, afastado, e depois aproxima-los de nós com um zoom. neste projecto não entram legendas, e mesmo este pequeno texto é inútil para a sua compreensão que só a mim me pertence e é tão simples e automática como respirar.

onde está o wally?

© 2006, nelson d'aires
27 fevereiro de 2006, carnaval em Laza - Galiza (província de Ourense)
© 2006, direitos reservados ao autor nelson d'aires
(clique na imagem para visualizar com maior resolução)

no fundo todos nós somos wally's que procuram o wally. e os que de nós não o procuram, gostámos de viver nos fantásticos mundos do wally com esperança de nunca virmos a ser encontrados.

"já não te aguardo, adio-me"

© maio de 2005, nelson d'aires
© maio de 2005, direitos reservados ao autor nelson d'aires
já não te aguardo, adio-me

no presente momento este trabalho é apenas composto por quatro fotografias. todas estas fotografias, ao contrário do que possa parecer não foram planeadas e as quatro pessoas eram para mim desconhecidas até ao exacto momento em que as abordei no decorrer da madrugada para lhes pedir uma fotografia aproveitando  e recriando apenas a matéria real existente, não fosse eu um amante da fotografia documental.

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portefólio

© 2004, nelson d'aires
Outubro de 2004, criadores de gado
lanche comemorativo após terem sido premiados um concurso de gado
Bagunte, Vila do Conde
© 2004, direitos reservados ao autor nelson d'aires
(clique na imagem para visualizar com maior resolução)

 

no presente momento estou a organizar o meu, ainda pequeno, arquivo de fotografias. a organização consiste na digitalização de negativos e depois catalogar fotograma a fotograma numa base de dados própria do tipo Iview Media Pro exportando de seguida a informação IPTC para os devidos ficheiros antes de estes serem gravados/arquivados  em DVD. 

ao mesmo tempo que faço isto vou construindo um pequeno portefólio para futura apresentação a editores. o que eu pensei ser uma escolha fácil tornou-se na verdade muito difícil. condensar um trabalho em apenas trinta fotografias é um verdadeiro desafio, especialmente quando não se tem ainda um arquivo de muitos anos. trinta fotografias deverão conter uma linguagem, uma personalidade, uma procura e ao mesmo tempo respostas claras.

a minha fotografia é toda ela feita de aproximação. são poucas as fotografias que tenho feitas à distância física e até mesmo emocional. e no futuro os trabalhos que procuro serão (se eu conseguir) sempre a roçar os ossos de quem me aceitar e acolher para que lhes fotografe o possível. sendo assim, talvez um dos caminhos do portefólio seja o de apresentar um caminho que sugira em parte isto mesmo.   

 

trasladação da irmã Lúcia

© 2006, nelson d'aires
© fevereiro de 2006, direitos reservados ao autor nelson d'aires
fotoreportagem - peregrinos na trasladaçao da irmã Lúcia



as fotografias deste pequeno ensaio não procuram a urna do corpo da irmã Lúcia. o que procurei eu então? se tão pouco não fotografei os rostos dos peregrinos que choravam ao verem a urna a passar por eles, que fotografei eu então? a resposta acho que está nos peregrinos que durante o dia resistiram no santuário de Fátima ao frio, à chuva, à espera de chorarem por eles enquanto rezavam a missa, para no regresso, poderem então celebrar, libertos das amarras do clero, fazendo aquilo que melhor sabem: comer, beber e dançar, ainda que, seja numa estação de serviço da auto-estrada.

mas a certeza que fiquei foi a de que, se naquela estação de serviço, enquanto se dançava, bebia-se e comia-se,  lá tivesse aparecido um judeu, um budista ou um muçulmano, teriam sido com certeza convidados para beber um copo e fazer um pé de dança. enquanto que, ao contrário, em Fátima, o Vaticano prepara-se para em Abril vedar o livre acesso a todos os homens que não sejam católicos, ou seja, um passo atrás no que diz respeito à compreensão e à tolerância para com todos os povos e pessoas que desejem ser verdadeiramente livres.

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(se clicarem aqui, poderão também ver o ensaio do Pedro Guimarães)