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partilha e conversa

Não levei tópicos, mas fiz-me acompanhado das minhas fotografias e enquanto as fotografias iam sendo projectadas na parede íamos abordando vários assuntos, como por exemplo a diferença entre fotojornalismo (para um jornal diário) e fotografia feita com tempo onde o fotógrafo investe o seu tempo, a sua vida para registar e aprender a vida dos outros (a dita fotografia documental, a história). É claro que ambas pertencem à fotografia documental, só que com propósitos temporais diferentes. O fotojornalismo cobre essencialmente a superfície dos dias enquanto que um trabalho de fundo procura ir além do que é visível, e isso é só o tempo que traz à “superfície”.

© 2005, nelson d'aires
2005 - Funeral do bombeiro voluntário Carlos Garcia - Santa Marta de Penaguião

Comecei por dizer que a fotografia documental é tempo. O tempo é muito importante. O tempo é tudo na fotografia documental, é nele que investimos a nossa vida e a dos outros. Não me esqueci de dizer que o importante é não desistir e que é também preciso acreditar muito no que estamos a fazer. Esqueci-me foi de dizer que é preciso continuar sempre, mesmo que mais ninguém acredite, porque essa é a força do nosso trabalho. A partir do momento em que as dúvidas apareçam então o melhor é arranjar uma forma para acabar o trabalho e partir para outro projecto. 

Falei que há fotógrafos que dedicam uma década de trabalho a um só trabalho e que no fim, a publicação desse trabalho nas revistas resume-se a umas dez fotos (em média) e a um texto (escrito ou não pelo fotógrafo). Trabalho esse que financeiramente não suporta os dez anos de investimento pessoal e que para isso o fotógrafo tem que encontrar outras formas de financiamento, seja a trabalhar em fotografia ou não.

Foram duas horas ininterruptas onde como é óbvio não consegui falar de tudo, ainda assim acho que deu para dar a conhecer um pouco da vida de um fotógrafo que se esquece da sua vida para ir documentar a dos outros. 

© 2004, nelson d'aires
2004 - Imigrante (Ucraniano) que vive sozinho num estaleiro de construção civil

Tentei que percebessem que na fotografia é quase impossível (se não mesmo impossível) mostrar tudo apenas com fotografias e que grande parte do trabalho pertence também ao leitor/observador em receber e interpretar de acordo com a bagagem cultural e emocional de cada um. É por isso importante aos receptores estarem o mais bem informados possível acerca do mundo, da nossa história da humanidade e terem sempre uma postura crítica que lhes permita observar o que não é possível mostrar numa fotografia mas que ainda assim está lá. Foi por isso que lhes disse que na minha opinião pessoal é essencial, antes de iniciar qualquer trabalho, fechar os olhos. E fechar os olhos para quê? Para que os restantes sentidos se desenvolvam e quando preparados abrir novamente os olhos. Os restantes sentidos estarão mais apurados e assim utilizar acima de tudo a audição, o tacto, o cheiro e a memória. Só assim consegue-se fotografar para além do limite do campo visual. E como se fecha os olhos? Com perguntas. Com perguntas que vão além do nosso umbigo:

01 Quem são estas pessoas?

02 Quais as suas crenças?

03 Como nascem?

04 Como constroem as suas casas?

05 Como se alimentam?

06 Como sorriem e agradecem?

07 Como choram?

08 Como morrem?

09 Como se vive depois da morte?


 

Abordei também a solidão que muitos fotógrafos enfrentam. Há trabalhos de fotografia documental (a grande maioria) que obrigam o fotógrafo afastar-se (do espaço físico) dos amigos, da família e da terra onde crescemos, vivemos e amamos. É verdade que ao longo do tempo (isto se os trabalhos forem longos ou com pouco intervalo entre trabalhos diferentes) a solidão acaba de alguma forma instalar-se no fotógrafo. Essa solidão pode acontecer a partir de diversos factores, sendo que o mais frequente é o fotógrafo (devido à sua necessária infiltração nos assuntos) sentir-se deslocado quando regressa a casa e ao seu quotidiano porque a sua mutação é inevitável, ele começa a ver muitas coisas e o fotógrafo que começa a ver demais está em certo modo condenado à solidão, mesmo quando regressa para a família ou para os amigos. É errado pensar que o fotógrafo não fica contaminado com as suas fotografias, todos ficam, ou pelo menos ficam aqueles que trabalham bem.

Falei também da sensibilidade como uma força. Não tive vergonha em afirmar que sou uma pessoa sensível e que as lágrimas não me turvam a visão. Ser sensível é a base para um fazer um bom trabalho, desde que essa sensibilidade nada tenha a ver com confortos ou desistências. Ver as pequenas coisas, ouvir os pequenos silêncios e sentir os movimentos é muito importante para assim podermos fotografar e mostrar fotografias que sejam capazes de transmitir uma emoção, uma tensão, um ambiente particular. Para a maioria das pessoas a sensibilidade é encarada como uma fraqueza, mas para mim é usada como uma força suplementar.

Abordei também o facto de todos nós sermos fotógrafos documentais. Um simples álbum de fotografias de família é fotografia documental, só que íntima e não preocupada em passar emoções estéticas que transmitam uma mensagem para o exterior, ainda assim é um documento importante que pertence à história da família de cada um de nós.

Transmiti ainda que para mim o caminho da fotografia documental começa no início de nós e sendo assim começa-se com:

01- O nosso corpo;

02 - O nosso dia a dia;

03 - A nossa família;

04 - O nosso Amor;

05 - Os amigos da nossa terra;

06 – E depois a estrada que nos leva até onde queremos com força.


Todas as fotos com © nelson d'aires

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comentários/comments

inês

que lindo texto...q lindas as imagens...devias dar aulas, tb...um beijinho_no_coração*

t

as informais são as melhores aulas, só de ler o teu esboço da aula, aprendi. Continua

dr. carlos marques

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh que alguém felizmente se antecipou a mim. eu bem sabia que que alguém tinha de levar a uma coisa dessas.
:)))))))))))))))))))))) não me esqueci. texto poético e fotografia: que tal este tema? tenho uma turma à tua espera ;)

leandro ribeiro

Comoveste-me, idiota, e melhoraste um pouco o que até agora estava a ser um sábado de cão. Que ao menos para isso sirva a fotografia, não é?

Paulo Serra

pelo que relataste a tua participação foi boa.

tenho é uma coisa a dizer-te, a fotografia que ilustra a "05 - Os amigos da nossa terra;" parte-me ao meio!!

ana Pereira

eles gostaram muito de ti e das tuas imagens.
e eu gostei muito de ter-te la.

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© 2003, nelson d'aires
2003 - São Bartolomeu do Mar

Hoje, a convite de uma amiga minha (obrigado Ana Pereira), tive a oportunidade de ir ao E.E.S.E.I.G (aqui em Vila do Conde) falar sobre fotografia documental a uma turma com alunos de idades compreendidas entre os 18 e os 20. Nunca tinha feito nada do género, ainda assim sabia que ia gostar de o fazer, e gostei. Não fui armado com tópicos nem com frases feitas (embora na véspera tivesse pensado no que poderia dizer acerca da fotografia documental e também do meu trabalho), mas sim com boa disposição, bastante informal e acima de tudo com vontade de partilhar um pouco da minha ainda breve experiência.

© 2004, nelson d'aires
2004 - Gémeos, Comenda (Setúbal)

Quando cheguei apresentei-me apenas com o meu nome e de imediato perguntei quem comprava revistas de informação ou jornais diários. A resposta foi unânime, ninguém (mas é claro que os alunos conheciam revistas tais como a Visão ou National Geographic). Após terem-me dito que ninguém comprava revistas disse-lhes em tom de graça que esse é o motivo porque é tão difícil a sobrevivência de um fotógrafo freelance que trabalha na produção de histórias. Disse-lhes mesmo que era por isso que eu mais tarde ou mais cedo irei passar “fome” e que teria de arranjar uma outra forma de subsistência e financiamento para este meu caminho.

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