coisas da escuridão

© copyright, nelson d’aires
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ontem à noite fui com uns amigos ao Swing ouvir e dançar ao som da escolha musical de Adolfo Luxúria. a quase ausência de luz repousou-me os olhos e abriu-me as portas dos outros sentidos para receber o interior da música. no seio de toda aquela obscuridade eram os góticos que melhor moviam a escuridão. observei-os durante muito tempo (não tirei fotografias), cuidei-lhes o ritmo, a luxúria dos pequenos detalhes, a palidez que os ilumina, a adoração pela morte. depois libertei-me dos “trabalhos do olhar” e foi tempo de esquecer “os passos em volta” para dançar e dançar até ao adormecimento da consciência. passadas umas horas, no despertar da percepção, senti-me observado. olhei em frente e uma mulher olhava para mim, linda, directa, ininterrupta, como se me conhecesse ao ponto de me querer conhecer durante muito tempo. senti-me preso, não era para mim, ninguém olha para mim, sou eu que olho para os outros penso e deixo-me ficar na penumbra. hoje, sou responsável agora por esta dúvida, aceito-a e vivo. Talvez devesse ter ido lá, dar-me a conhecer, talvez já me conhecesse. deixo-a ir-se embora, talvez não fosse para mim. não o devia ter feito. na fotografia sou diferente, vou lá e tento-o fazer sempre, mesmo se não houver luz.






