Scalati | Paulo Nozolino
uma das coisas que mais me agrada na forma de trabalhar do Nozolino é o facto de ele no final de cada trabalho fazer em primeiro lugar uma exposição no local onde fotografou, ou seja, confrontar as pessoas, faze-las ver e pensar e dar a cara pelo trabalho que fez. Scalati não foi excepção e no dia da inauguração na Córsega, Nozolino sentiu a “censura dos media” e das figuras ilustres dos poderes locais que não o cumprimentaram.
o grito está lançado. Nozolino fez aquilo que tinha de fazer: iniciou um processo onde as fotografias não são a parte mais importante. o mais importante é o alerta que elas geram por onde passam.
as 15 fotografias que compõem o trabalho são pequenos
apontamentos e alguns retratos de um quotidiano que afirma a existência de vida
e de uma cultura.
estas foram as fotografias vistas por mim:

foto 1 e 2
“a estrada acaba de repente.” começa assim a primeira
fotografia e começa assim o texto. o fim de uma estrada dá início a Scalati
(atolados). Nozolino não se interrompe e
como um traço contínuo avança para a segunda fotografia, para o interior do
medo de quem não apanha aquela estrada, e vê, um parque de roulottes embebido
pelo tempo da vegetação selvagem e pelas sombras desse crescimento: “as
roulottes têm os pneus vazios. há já muito tempo que não viajam”.
foto 3
com a candura de quem faz a fotografia um modo de vida,
entra na vida de 30 famílias ciganas. Nozolino sabe-o, reconhece que todo o
sujeito que fotografa é sempre mais importante do que ele. é uma bênção ser-se
aceite no seio de outras vidas e fotografar as crias, essa é a fotografia que
nos denuncia a existência da concepção da vida no interior das roulottes.
foto 4
de que somos feitos? entre muitas outras coisas, somos
feitos de memórias. as fotografias são memórias e as fotografias familiares são
memória e afectos. são prova da resistência à erosão do tempo, são sobrevivência
nos momentos de maior esquecimento. Nozolino viu a existência dessas
fotografias nas paredes interiores das roulottes. viu a existência do cuidado
de quem as protegeu dentro de uma manga plástica para as proteger da humidade:
a existência desse tempo humano suspenso para recordar quem lá vive e assombrar
quem não os toleram.
foto 5
na fotografia seguinte há uma menina mulher que olha para
dentro de Nozolino. a sua beleza natural transcende a imagem feita. é um
retrato que é uma armadilha à natureza humana, serão poucas as pessoas que não
ficarão enamoradas por aquela menina quase anónima. esse encantamento deixa-nos
sensíveis e dependentes. se Nozolino fotografou o interior sonoro “porque se
esqueceram de nós”?, já eu, acrescento “não me esquecerei de ti”.
foto 6
uma toalha plástica de mesa estampada com corações. lugar
cardíaco da terra que habitam há 30 anos.
foto 7
uma árvore negra, aberta e despida, segura no seu ventre um
farol de automóvel. é visível a mutação da função dos objectos como vestígio de
residência.
foto 8
não são buracos que dizem o cessar de uma toalha de pano de
mesa. em cima da toalha uma fotografia de um casamento. noivo e noiva, lado a
lado, emoldurados pelo tempo de uma história.
políptico (4 fotos: 9, 10, 11 e 12)
uma diagonal que traça gerações. dormir para crescer, dormir
para morrer. a inocência e o desamparo do vício. o tempo move-se as sombras
crescem, a terra é a mesma. pertence-se à terra onde enterramos os nossos
mortos, a sabedoria dos nossos antepassados. escolhemos este lugar que ninguém
queria. a lama tem marcada a cicatriz da nossa chegada, a mesma que serve de
recreio às nossas crianças, é nela que criam os seus anti-corpos. o que para
muitos é sujidade, para nós é protecção imunitária. adoptamos esta terra como
natal, somos franceses e detentores de poder de voto, aqui, a luz das estrelas
é testemunha de todas as nossas ceias, de todas as noites escuras.
díptico (fotos 13 e 14)
uma imagem religiosa feminina. costeletas a grelhar sob
carvão.
foto 15
pedaços de alumínio. restos de portas e janelas de alumínio (e talvez
outros metais) amontoados. sucata da especulação imobiliária.
as fotografias acima foram todas digitalizadas da revista Visão n.º 710 de 12/10/2006:
Erbajolu, Bastia 2005
© Paulo Nozolino
Perfil
Paulo Nozolino
(foto e texto abaixo, pelo fotógrafo J. P. Coutinho para o Jornal de
Notícias)
Paulo Nozolino no galeria Quadrado Azul, Porto, no dia da inauguração da sua exposição: Scalati
© j paulo coutinho
Paulo Nozolino (Lisboa 1955), fotógrafo de profissão, estudou em Belas Artes; e, em 1975 ruma a Londres, para estudar fotografia no London Colege of Printing até 1978.

A foto da foto que faz levitar a beleza dos impostamente atolados/ soterrados, tvz a sua nomadez de alma os ajude a soerguer
Posted by: t | 02-11-2006 at 14:56