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não sabiam para onde

Na22012007

não sabiam para onde
só lhes restava correr
para se esgotarem e com sorte
morrerem primeiro de cansaço

a dada altura o mundo inteiro corria
como se a imitação fosse coisa de sobrevivência
ninguém olhava para trás
não queriam na morte a memória

foram muitos os anos seguintes
para que o pó levantado caísse
sepultando as ruas pejadas de corpos

© nelson d’aires

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encenaram que o dia seguinte iria de novo amanhecer

Na20012007

encenaram que o dia seguinte iria de novo amanhecer
ambos sabiam que não

estavam por segundos conscientes da chegada dos soldados
ninguém poderia sobreviver para escrever a história

os soldados
esses
tinham guardada para eles próprios
a última bala

© nelson d’aires

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dez mandamentos

Publico_19012007

começou quando uma nuvem se atirou do céu

Na17012007

começou quando uma nuvem se atirou do céu
e fez da queda a sua morte como revolução

nos dias que se seguiram
o nível das águas do mar subiu
os rios engordaram
e as barragens explodiram

a terra diminuía todos os dias
até que pela sua disputa
a guerra global começou

em poucos dias os mortos eram tantos
que foi possível pressentir
a salvação deste planeta

© nelson d’aires

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há quem aguarde a morte de fato vestido

Na12012007

há quem aguarde a morte de fato vestido
quem assim se anuncia sabe que
não tem quem lhe feche a campa

© nelson d’aires

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não há grito que descreva o menino mecânico

Na10012007

não há grito que descreva o menino mecânico
quando viu tarde demais
o quanto ajudou a olear a morte do mundo

© nelson d’aires

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a criança levantou-se e vendeu os braços

Na09012007

a criança levantou-se e vendeu os braços
o sonho de comprar todos os muros realizou-se

de seguida decretou que a partir dali
os muros existem só para lhes mijar contra

disse que a visão de os ver derrubados
era agora uma breve questão de tempo

© nelson d’aires

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não se ouviu o bater da porta

Na08012007

não se ouviu o bater da porta
pela razão simples não necessária
de acender a luz para sentir
o sopro último do beijo que te deixa em paz

© nelson d’aires

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este é o meu corpo

Na04012007

© nelson d’aires - auto-retrato

este é o meu corpo. um pedaço breve de tempo. uma carcaça que recolhe e transporta dentro de si os lugares da gestação da nossa morte. assim como os ossos cada fotografia é uma prova do desaparecer e o desaparecimento é a certeza de que se existe. no verso de cada acto sumido fica a memória e por vezes a dor sob a forma de um vinco, o cunho de que se está vivo.