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SIM, amanhã vai continuar a ser difícil

hoje, o povo foi chamado à força da sua voz e gritou SIM. o seu SIM não mata, não nos mata, ainda estou vivo. SIM, a interrupção Voluntária da Gravidez feita pela mulher até às dez semanas em estabelecimento autorizado deixou de ser Crime.

SIM, o povo não teve Medo de oficializar as estatísticas em vez de as ignorar e vota-las a uma clandestinidade cuja lei não reconhecia a oficialidade, e no entanto acontecia.

SIM, nenhuma Mulher a partir de hoje vai abortar como quem muda de penso higiénico. SIM, sou parte integrante de uma sociedade e pago sem problema de consciência ou de avareza a ajuda a quem tiver de tomar a sempre muito mais do que difícil decisão de fazer um aborto.

SIM, quero que em caso último ele seja feito em dignidade num hospital público com o dinheiro de um estado que tem por direito cuidar dos seus. SIM, quero que os médicos sejam profissionais, e se assim o tiver de ser que lhes seja dada a oportunidade de dizer “NÃO eu NÃO quero fazer isto, não consigo viver com isto”, para que assim as pessoas sejam o melhor cuidadas possível e não mal olhadas e afastadas para uma lista de espera interminável.

SIM, todas as pessoas têm de ser responsáveis pelas suas acções e SIM, eu sou parte integrante. o NÃO e o SIM devem sempre existir, são necessários os dois lados. mas NÃO, ninguém deve ser imposto a nenhuma falha de consciência humana dos outros.

SIM, eu sei que o preconceito vai continuar e os abortos clandestinos também. mas que sejam menos, cada vez menos a cada nova geração. SIM, agora a responsabilidade é maior para todos nós, já não temos a desculpa de uma lei desajustada, injusta e cega. SIM, continuarão a existir clínicas clandestinas enquanto as pessoas forem marcadas e julgadas em praça pública por mentes beatas por terem optado por fazer aquilo que ninguém quer, aquilo com que ninguém nasce adaptado a fazer.

SIM a ver o mundo como ele é para agirmos de igual para igual e não desligar certos factos com leis que provocam actos de ilusão conforme as nossas conveniências ou acordos.

SIM, sou tolerante com o NÃO e preciso tanto dele como o contrário para ter o maior número possível de soluções e apoio para uma decisão final que no fim e é sempre no fim toda e só dela a de quem se submete numa solidão profunda a que ninguém por momentos que seja é capaz de ajudar.

SIM, um dia quero ser pai com uma mãe.

hoje, não preciso festejar o culminar de uma campanha partidária. por muito que os partidos digam que esta não foi uma campanha partidária, a verdade é que este referendo mostrou sempre um país partido por valores religiosos, sociais, partidários políticos e etc. a votação final assim o confirmou.  a esta hora (21:56h) os resultados apurados são: SIM 59,01%; NÃO 40,75%; Abstenção 56,39%. só a Abstenção é perigosa e no entanto foi essa mesma abstenção que hoje se deu a mostrar com mais força.

a Abstenção é a mais perigosa das zonas escuras, não tem um rosto, definição, não se lhe conhece os argumentos para o diálogo, não se sabe se é um apoiante ou um acusador. a Abstenção pode ser uma armadilha capaz de engolir em simultâneo o SIM e o NÃO. NÃO, não gosto de um povo que evita o pensamento e sua acção. NÃO gosto de um povo que fuja ao confronto que toda a responsabilidade exige.

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comentários/comments

maf*

... é verdade, SIM!

t

SIM, gostei da tua crónica e partilho das ideias nela contidas

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SIM, amanhã vai continuar a ser difícil

Jcp_aborto

© João Carvalho Pina / Kameraphoto

hoje, sorri por se ter dado mais um passo pelo direito da voz das mulheres ficar livre dos juízos dos outros. não há mulher e homem que mereçam pagar a falha de quem não consegue lidar consigo mesmo numa situação igual. por isso somos todos iguais na diferença. continuamos todos a querer rumar para uma sociedade melhor e mais justa.

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