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quis dizer-lhe que a cidade que eu queria ver cabia inteira na sua casa.

Na_eiffel

© 2007 nelson d’aires - Paris

quis dizer-lhe que os monumentos e os museus não me interessam. quis dizer-lhe que a cidade que eu queria ver cabia inteira na sua casa. quis dizer-lhe que não tenho vergonha por não ter resposta  da torre eiffel que não vi, mas que em vez absorvi a luz exacta que entra na sua sala desde o amanhacer até ao anoitecer em três estações do ano distintas e que para além dela e dos seus "concubins" mais ninguém conhece. quis dizer-lhe que a cidade dos filmes pertence só enclausurada nos filmes. quis dizer-lhe que o homem das minhas fotografias só existe nas fotografias que faço e que tudo o resto são tentativas de achar uma verdade. quis dizer-lhe que a fotografia é de uma solidão imensa e por vezes torna-se demasiado próxima do que não queremos ser.

uma matilha de cães devorou um homem esquecido

Na_umamatilhadecaesdevorouumhomemes

© 2007 nelson d’aires - Paris

amanheci com a vaga lembrança de ter visto um homem a explodir no artificio do fogo. quando caiu na água o rio voltou à corrente de quem se expulsa de si próprio. a explosão foi o tempo suficiente para se escrever notícia de rodapé no jornal diário da região. a notícia principal foi reservada para título gordo na capa do jornal nacional. uma matilha de cães devorou um homem esquecido. só houve conhecimento suficiente para o título. não se escreveu o texto da notícia porque o homem estava esquecido. não havia também fotografia no lugar que ficou esquecido em branco.
com o jornal nacional na mão, um menino chorava sem saber porque o fazia. seguiram-se pessoas adultas aflitas pela existência do rectângulo em branco na capa do jornal sem nunca lembrarem o homem. confessaram ter medo daquele rectângulo, daquele branco que era coisa nenhuma e que isso deixava sem saber o que vir a fazer. confessaram ainda que, a aflição é grande quando um dia poderem vir a ser também esquecidos. não confessaram o facto de terem esquecido o homem devorado. estava esquecido e não era coisa deles mas sim da pessoa esquecida.

nunca entendi este poder nas mãos

Na19072007

nunca entendi este poder nas mãos
nas nossas mãos

vamos conseguir começar de novo?

somos os mesmos
a espécie é a mesma
quanto tempo faltará para a repetição?

já não aguento o cheiro da carne a arder
está comigo em todo o lado e
não desaparece o grito

vejo-te a arder e eles não chegam
ainda demora muito?

não deveríamos ter sobrevivido
não deveríamos estar aqui para recomeçar

porque insistimos?


© nelson d' aires

escassos eram os sobreviventes para regar as flores

Na18072007

escassos eram os sobreviventes para regar as flores

a sombra das ervas crescia daninha à ceifa

por serem últimos não desistiram de lutar por
um avião que chegasse ao lugar dos que
morreram na memória da paz

© nelson d' aires

todos os dias são um fogo posto

Todososdiassaoumfogoposto

todos os dias são um fogo posto
sem aconchego possível a tudo que nos persegue
resta-nos talvez adormecer os olhos sobre
as cinzas do perfume que todos os mortos libertam
e agradecer cada sepultura como um novo embrião

© nelson d' aires

acredito que ninguém sabe beijar sem primeiro aprender a falar

Na_holgatoycamera

© nelson d'aires

às vezes esqueço-me de falar. de comer também. quando algo me lembra de que tenho de falar, alguém se esquece de ouvir. com medo de as minhas palavras provocarem a surdez de quem me rodeia, fico muitas vezes sem falar, até esquecer a função da boca. acredito que ninguém sabe beijar sem primeiro aprender a falar e o meu medo é esse, o de esquecer beijar, mais do que esquecer falar.

não sabiam para onde

Na22012007

não sabiam para onde
só lhes restava correr
para se esgotarem e com sorte
morrerem primeiro de cansaço

a dada altura o mundo inteiro corria
como se a imitação fosse coisa de sobrevivência
ninguém olhava para trás
não queriam na morte a memória

foram muitos os anos seguintes
para que o pó levantado caísse
sepultando as ruas pejadas de corpos

© nelson d’aires

(clique na imagem para ver a fotografia com maior resolução)

 

encenaram que o dia seguinte iria de novo amanhecer

Na20012007

encenaram que o dia seguinte iria de novo amanhecer
ambos sabiam que não

estavam por segundos conscientes da chegada dos soldados
ninguém poderia sobreviver para escrever a história

os soldados
esses
tinham guardada para eles próprios
a última bala

© nelson d’aires

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começou quando uma nuvem se atirou do céu

Na17012007

começou quando uma nuvem se atirou do céu
e fez da queda a sua morte como revolução

nos dias que se seguiram
o nível das águas do mar subiu
os rios engordaram
e as barragens explodiram

a terra diminuía todos os dias
até que pela sua disputa
a guerra global começou

em poucos dias os mortos eram tantos
que foi possível pressentir
a salvação deste planeta

© nelson d’aires

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há quem aguarde a morte de fato vestido

Na12012007

há quem aguarde a morte de fato vestido
quem assim se anuncia sabe que
não tem quem lhe feche a campa

© nelson d’aires

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