Pampilhosa da Serra
Agosto 2005
© 2005 direitos reservados ao autor nelson d'aires
Estes homens e mulheres são corpos voluntários que habitam as ruas contaminadas pelo produto resultante entre o acidente e o Homem. à chamada de um grito, por entre a desordem do quotidiano, suspendem as tarefas dos seus lares para atenderem a emergência e a regeneração da circulação nas artérias. por debaixo dos tapetes do chão das suas casas ficam escondidos os lugares abertos com o volume insuficiente para receber a morte de quem partiu atrás do grito.
todos estes homens e mulheres têm na sua vida a opção. ou melhor dizendo, a opção é um alambique que destila todos estes homens e mulheres para que gota a gota se tornem úteis. O corpo voluntário de bombeiros é isso mesmo, uma opção que está de portas abertas para quem quiser deixar de ser bondoso e tornar-se útil. no entanto, quando regressam dos quartéis para as suas casas retomam sempre o Ser: filho, marido, esposa, pai ou mãe, tudo isso que nada tem a ver com a utilidade.
como chegam estas pessoas a um estado permanente de emergência? que vento lhes sopra sobre os cabelos dizendo-lhes para tirarem o pouco de si que têm em casa e o darem ao próximo, sendo este, quase sempre um desconhecido?
sabendo que se é voluntário para dormir e comer ao relento sem a protecção de um relógio, que veneno têm em casa que faz com que um atraso na colocação do jantar na mesa provoque uma discussão?
há um sem número de perguntas cuja resposta é sempre insuficiente.
[quando uma noite encontrei este grupo de bombeiros, apresentei-me descalço, com as câmaras aos ombros de camisola caviada e bastante sujo. um deles em tom de brincadeira disse-me que eu parecia mais um vagabundo do que um fotógrafo. a sorrir respondi que naquela noite, todos iríamos dormir no mesmo chão como voluntários]