www.nelsondaires.net > contra fogo |1.ª parte, noite

#11

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Póvoa, Freguesia de Campelo
Concelho de Figueiró dos vinhos
Agosto 2005

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Agora sei: aquilo que me leva a um lugar não tem a obrigação de me trazer de volta.


em noite de fogo, quando conduzimos sozinhos por terras e estradas desconhecidas, o saber que em nós transportamos torna-se reduzido perante o desconhecido que está para além de cada nova curva. com isso vem o medo, senti-o muitas vezes como um travão. para além da curva podia estar um poste de telecomunicações no chão a arder, a borracha a arder dos seus cabos, fios eléctricos a chispar, a estrada cortada.

e por vezes não há volta para trás, não quando tudo atrás de nós está a arder. esta é uma das razões porque existem os bloqueios policiais à circulação das viaturas dos cidadãos comuns. para além das viaturas atrapalharem a circulação dos carros de combate a incêndio, ambulâncias, carros de comando e carros militares de apoio, ninguém pode assegurar a segurança das estradas que atravessam as matas a arder.

algumas vezes, após muita persuasão, eu consegui passar os bloqueios policiais com muitas advertências. é claro que tive de mentir, mentia com uma convicção que por momentos tudo o que dizia era verdade, até para mim. “sim sim, Sr. Guarda, já tenho muita experiência nisto dos fogos. não se preocupe, eu conheço a estradas, vai correr tudo bem. e com certeza que não atrapalharei ninguém, eu preciso é de trabalhar”. Eles olhando para mim e para as câmaras, eu todo sujo, rosto preto pelo pó das cinzas que se colava ao suor, a cheirar mais a fumo do que um rescaldo feito há uma hora, lá se compadeciam e por uma ou duas vezes lá consegui passar.

foi após uma dessas passagens que me apercebi que conduzia no arame e sem rede protecção. dentro do carro não se conseguem as fotografias que eu queria, e deixar o carro na berma de uma mata nunca era aconselhável, eu não podia correr o luxo de ficar com o carro em cinzas, pois é a única coisa que verdadeira possuo na totalidade em meu nome, e dinheiro para outro não há. pelo que após ter conduzido por algumas estradas locais, cheguei a uma pequena localidade chamada Póvoa, freguesia de Campelo no concelho de Figueiró dos Vinhos.

a localidade era constituída por meia dúzia de casas e um parque infantil com duas mesas de merenda. não mais do que dez pessoas e umas três crianças estavam todos juntos nessa pequena área de lazer. eram duas e tal da manhã quando ali cheguei e toda a localidade estava ali acordada a olhar uma frente de fogo com alguns quilómetros de largura a avançar lentamente para aquela e outras localidades. por qualquer razão senti que ali o meu carro estava seguro e decidi estacionar.

acerquei-me da população e cumprimentei-os. perguntei-lhes como estava o fogo ali a evoluir e depois sentei-me um pouco ao lado deles a fumar um cigarro e a olhar também para a linha de chamas que comia mato e emitia um rugido de mar revolto.

passado um tempo, perguntei se lhes podia fazer umas fotografias. não sem antes terem-me perguntado quem era, de onde vinha e para o que vinha, consentiram. foi assim que fiz algumas fotos, não muitas, dos miúdos um pouco indiferentes ao fogo e que aproveitavam a excepção das horas tardias para brincarem com os amigos no parque infantil, sempre com as chamas lá no fundo a devorar anos e décadas de floresta que iria acompanhar o crescimento das suas simples vidas. aquelas crianças, só quando tiverem uns trinta, quarenta, cinquenta anos, é que terão a oportunidade de usufruir novamente da sua mata. até lá as brincadeiras terão que ser no pequeno parque infantil.

depois de ter dado umas voltas a pé pela zona, e de ter assistido à contenção das chamas naquela localidade por volta das cinco e meia da manhã, optei por dormir esticado num dos bancos daquele parque de lazer.

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