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#14

#14

Freguesia de Chaínça
Concelho de Abrantes
Agosto 2005

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não sei explicar muito bem, mas nos dias em que persegui as frentes de fogo em vários pontos geográficos do nosso país, senti que eram as noites que me faziam mover com mais determinação. ainda assim, foi à noite que menos fotografei.

durante o dia, chegava às frentes do fogo guiando-me pelas enormes e massivas colunas de fumo. à noite o fumo não se vê, mas vê-se a luz. è durante a noite que o fogo atinge a sua forma sublime. a crepitação das cores quentes e abrasivas, é um fenómeno que não deixa ninguém alheio, daí as populações ficarem paradas nas bermas das estradas completamente consoladas pelo medo e pela beleza natural da destruição.

uma noite, após ter jantado umas sandes que tinha preparado durante a tarde e de ter abastecido o automóvel, olhei em redor e encontrei um enorme clarão de cores no concelho de Abrantes, aquele vermelhar tinha acabado de decidir para onde eu deveria ir. encontrei uma localidade que estava no caminho dessa frente de fogo e aí decidi esperar, bem como uma parte da população e de alguns carros de combate dos bombeiros. apenas uma ou duas casas poderiam ficar em perigo, pelo que a tensão não se fazia sentir muito. o incêndio tinha andado na zona durante todo o dia pelo que os populares já se lhe tinham habituado.

deveriam ser umas duas da manhã, já farto de esperar pelo avanço do fogo, observei uma carrinha de caixa aberta carregada com um depósito de água de 1000 litros e com mais oito pessoas todas elas em pé, agarradas ao depósito e aos taipais da carrinha. era uma patrulha popular organizada de forma espontânea com a missão de percorrer as estradas pelo meio das matas à procura de eventuais reacendimentos ou novos focos de incêndio para os apagar com os poucos meios que dispunham.

aproveitei uma paragem da carrinha para aproximar-me e meter conversa com as pessoas que estavam todas bem dispostas empoleiradas em cima da caixa aberta. daí até eu estar também empoleirado em cima da carrinha foi um pequeno passo. com eles percorri algumas aldeias do concelho até chegarmos um par de horas depois até à aldeia, paragem final, dessas pessoas que no dia seguinte tinham de ir trabalhar logo pela manhã. a aldeia ficava mais ou menos a sete quilómetros do local onde eu tinha deixado o meu carro, e como não lhes pedi para me levarem ao carro, despedi-me e coloquei pés a caminho pelas estradas que atravessavam a mata até chegar ao carro onde cansado dormi que foi uma beleza.

no dia seguinte reparo que durante o tempo que andei com a patrulha popular em não fiz mais do que uns oito disparos, e isto para fazer uma ou duas fotos. a sensação de estar na caixa aberta de um camião em andamento pelo meio da noite em estradas iluminadas apenas pelo fogo, é algo que não consigo explicar muito bem, mas a sensação foi boa. e é engraçado como aquelas pessoas desconhecidas estavam preocupadas com a minha segurança no camião enquanto eu não avaliava a segurança da mesma forma do que eles. eram eles que deviam temer pela sua segurança e não pela minha. eu acima de tudo era um espectador que tinha ali chegado e a qualquer momento podia partir sem qualquer dano. bastava-me meter na estrada, fazer não mais do que 20km, para que a minha vida voltasse ao dia a dia das pequenas e insignificantes preocupações, tais como: “merda, o croissant com manteiga podia estar mais aquecido e prensado”.

aquelas pessoas no fundo queriam a minha segurança para que com as minhas fotografias pudesse testemunhar o seu esforço, ver que os braços cruzados não salvam nada, e que as lágrimas deixam de ter sentido se primeiro não se tentar tudo ao seu alcance.

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