Freguesia de Medroa
Concelho de Abrantes
Agosto 2005
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e a questão é unicamente esta: quando vai acontecer de novo?
à noite - quando era obrigado a largar o carro e a colocar os pés em estradas apagadas do mapa pela corrosão nocturna - fazia a leitura de tudo o que eu pudesse ver e ouvir à minha volta para em seguida escolher uma das muitas hipóteses de quem ali parou sem se fazer anunciar.
foram muitas as vezes em que estive quase a meter-me no carro e fazer marcha atrás, de volta ao conforto da estrada que até ali já conhecia.
na madrugada de segunda-feira dia vinte e dois de Agosto desloquei-me para o concelho de Abrantes após ter ouvido na rádio a notícia de que um grande incêndio lavrava sem parar há dois dias. foi à uma da manhã que cheguei a Abrantes e rapidamente foi fácil ver os clarões que comiam a escuridão. as condições climatéricas que se faziam sentir anunciavam que a madrugada ia ser longa, os ventos eram fortes e a humidade no ar não era suficiente para cair sobre a terra.
quando fui obrigado a largar o carro tive de tomar decisões. depois de ter analisado a direcção do vento (embora este por vezes mudasse de direcção), a localização das chamas e a geografia do terreno, optei por ir meter-me à frente do caminho de uma das frentes de fogo. enquanto caminhava pelo alcatrão, o vento batia-me forte de frente, a sua força empurrava os carros de um complexo residencial turístico que estavam em fuga por precaução, trazia-me também o adiantamento do som amplificado pela noite de uma mata a ser vorazmente consumida. o mar não arde, mas o som forte da rebentação de um mar em tempestade atinge por vezes a forma deste som a arder. no fundo, talvez a destruição seja feita apenas de um só som, não importa se no mar, na terra ou no céu.
passei por várias casas recolhidas umas dezenas de metros da estrada, todas elas iluminadas pela insónia e pelos vultos em alerta, a vigiar o a vegetação seca que os engolia. as faúlhas projectadas pelo vento iam caindo a meu lado e por toda a mata, campos e casas. rapidamente apercebi-me que esta é uma das formas mais eficientes da propagação das chamas, há sempre uma faúlha incandescente e apressada para fazer o cerco. por isso, não foi com espanto que, ainda a um ou dois quilómetros da frente de fogo, avistei a umas dezenas de metros recolhido da estrada um monte de palha a incendiar-se. valeu a vigilância e prontidão das pessoas em alerta, caso contrário a propagação ao palheiro era mais do que certeza.
quando finalmente cheguei a umas centenas de metros à frente de fogo, encontrei-me num entroncamento no meio da mata, aí tive de optar. eu tinha três opções: voltar para trás, continuar pela estrada virando à esquerda ou à direita. o fogo vinha na minha direcção, sabia que dali por um tempo (tanto podia ser quinze minutos como duas horas, tudo dependia da força e direcção do vento) o fogo ia chegar à estrada onde me encontrava engolindo assim as opções de virar à esquerda ou à direita. resolvi, a medo, virar à direita (tinham-me indicado que havia uma população perto, mas à noite e numa terra desconhecida, o perto pode ser uma distância incerta) e apressei o passo até encontrar uma nova estrada ou uma população. enquanto caminhava em passo quase de corrida o barulho das chamas avançavam por toda a linha da estrada. o que no momento me separava de ver as chamas era uma pequena encosta cheia de eucaliptos, do outro lado soprado a vento tudo ardia, e eu não precisava de ver as chamas para o saber. depois de ter percorrido quase uns oitocentos metros (acho eu) tapada por uma curva estava a primeira casa de uma pequena povoação, sendo que as restantes casas vim a saber mais tarde que estavam mais à frente uns quinhentos metros.
quando cheguei a essa casa pude ver e sentir a força das chamas que se encontravam ocultas pela pequena encosta. ali ao descoberto a força do vento era a dobrar, o barulho era também a dobrar, as faúlhas começavam a cair com intensidade sobre a casa, o terreno e a estrada. um carro estava de partida, conduzido por uma senhora de meia idade levava consigo umas senhoras de idade e também duas meninas. dois camiões de militares em fuga passaram por nós. um dois carros de bombeiros também passaram por nós para se reabastecerem. por fim vejo um homem a correr na minha direcção como se estivesse a fugir do inferno, atrás dele a estrada que ia até às restantes casas (uma povoação cuja única estrada servia de entrada e de saída) estava engolida pelas chamas, pelo fumo e pelo vento que projectava brasas incandescentes por tudo o que era lado. o homem, ofegante, consegue escapar das chamas e chega bem ao local onde eu estava, mas rapidamente retoma a corrida pela estrada fora.
estando eu ali pela primeira vez, chegado a pé, todo este cenário não me acalma nada e confesso que enquanto não fiz para mim uma análise do local e de tudo o que ali estava a suceder eu não fui capaz de fazer uma única fotografia de tudo o que estava a acontecer. porque a dúvida era só esta: fico sem saber o que vem, ou parto sem saber o que aqui acontecerá?
observo depois que estão três pessoas de baldes e mangueira na mão a molhar o terreno em volta da casa, um casal entre os setenta e oitenta anos e mais o filho na casa dos quarenta. três pessoas que se recusaram a abandonar a casa, sem cruzarem os braços faziam o que estava ao alcance dos seus braços e forças. neste momento chega uma ambulância de evacuação e eu rapidamente começo a falar com os senhores para eles entrarem na ambulância. enquanto isto o fogo cada vez mais forte e perto. mas ninguém me deu ouvidos, nem mesmo aos bombeiros. os bombeiros foram falar com o filho e ele muito calmo apenas disse que se os pais quisessem ficar que ficassem, era com eles. a senhora, essa, enquanto carregava um balde de água lançava palavras ao vento: "há catorze anos não me mataste, só ardeu a minha casinha. mas agora não, agora não vou deixar que nada arda!!".
os bombeiros não podiam ficar ali retidos, dentro da carrinha de transporte estavam mais pessoas evacuadas. eu, ainda sem saber se ficava ou se aproveitava a ambulância de transporte, num impulso, peço aos bombeiros para me levarem até ao entrocamento de onde eu viera e que lhes ficava a caminho. assim foi, uns minutos depois encontrava-me novamente sozinho no meio do entroncamento com as mesmas opções que antes, só que desta vez as chamas estavam muito mais perto.
quando a ambulância me deixou no entroncamento e partiu, perguntei-me: o que estou aqui a fazer!?
Foi essa a pergunta que me fez voltar a correr de novo para o local de onde tinha fugido não fazia cinco minutos.
ao caminhar novamente pela estrada, o fogo já estava a descer a pequena encosta para logo a seguir engolir a estrada por onde caminhava, ainda assim, com medo, resolvi prosseguir com a corrida.
quando chego às imediações do terreno da casa, vejo a velha curvada com um balde na mão a deitar água numas árvores de fruto que lá existiam e ouço-a a gritar "seus filhos da puuuttaaa!!! bandidoosss!! querem nos matar, mas não vão conseguiiiirrrr!"
no exterior da casa começo a fazer algumas fotos (poucas, porque o medo, confesso estava comigo). vejo o marido da velha a tentar apagar o fogo que estava a consumir uma arrecadação com tábuas de madeira empilhada no interior, pelo que vou ter com ele e digo-lhe "esqueça este barraco e vá molhar a sua casa. a madeira já está perdida". mas o senhor não me deu ouvidos, como se eu não existisse, com a sua mangueira de regar as árvores de fruto, continuou a tentar o impossível, era a sua vida.
o fogo, esse, já estava em redor de nós todos e toda aquela zona era um braseiro gigante com o vento forte a expelir as brasas e as faúlhas para cima de nós. entretanto chega mais uma ambulância para uma última tentativa de evacuação e nada, os velhos inamovíveis. eu, tomava conta de mim e ia fazendo uma ou outra foto até que o filho (e dono agora da casa) virou-se para mim e muito calmo perguntou-me: “o que está aqui você a fazer?”
ele tinha razão, o que estava eu ali a fazer? arrumei a câmara na mochila e acabei por ajudar aquelas três pessoas que estavam sozinhas. enquanto houvesse uma possibilidade que fosse de evitar o pior, eles não arredavam pé e eu estava ali, eu fazia parte daquilo, não podia ser apenas espectador.
por fim chegou ao local um carro de bombeiros com um canhão de água para proteger a casa e a situação melhorou. mas tudo em volta de nós continuava a arder.
eu não fiquei lá para contar o resto da estória, aproveitei a boleia da ambulância. de regresso ao entrocamento o fogo estava já a cortar a estrada, a pé não se passava devido ao calor, mas a ambulância passou e chegado de novo ao entrocamento pedi que me deixassem ali que o resto do caminho eu já conhecia.
eu sei que acabei por não ser uma boa testemunha. mais as dúvidas que o medo não me deixaram com calma suficiente para trabalhar. mas não estou arrependido, acabei por fazer as fotos possíveis, não mais de quinze disparos. também sei que a minha ajuda de nada lhes valeu, mas foi muito melhor “não os ter ajudado” do que andar a atrapalhar-lhes os movimentos.
hoje, passados uns meses escrevo:
todos os dias levantámo-nos do chão onde dormimos, não importa se de manhã ou à noite, preparamos o pequeno almoço e durante esse simples acto de sobrevivência do quotidiano não pensamos nunca que são as pequenas coisas que nos salvam da demência de tentar compreender as horas. a certeza das devastações é que elas existem, como as pessoas elas são como as estações. e as questões são unicamente estas: quando vai acontecer de novo? quem testemunhará?