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CONTRA FOGO
(1.ª parte: noite)

de volta ao sossego do meu querido sótão. a desarrumação continua e os gatos ainda urinam no chão do quarto contíguo ao meu. as janelas continuam abertas na posição exacta da respiração possível e as portas despidas de fechaduras continuam encostadas ao pó. nas unhas das mãos e dos pés transporto a terra e as cinzas de três mil quilómetros feitos de carro, sempre na cauda dos fogos florestais.

o fumo ainda não desapareceu e não vai desaparecer nunca. é certo que tudo renasce.

as roupas, o tecido dos bancos do automóvel, o meu cabelo: tudo cheira ainda a fumo, tudo é fumo. se há memória que sobreviva ao fogo é o cheiro denso e negro do fumo. não sei ainda o que fotografei, mas sei o que vi: a terra arde, as pessoas choram demasiado com os braços cruzados e os bombeiros voluntários precisam de descansar mais.

foram duas as semanas em que persegui as chamas que expulsaram os animais dos seus habitats (aqueles que não conseguiram fugir morreram e as suas estórias levadas com o fumo). por conta própria fui tentar fotografar o medo, o espanto, a fuga, a destruição, o combate, o cansaço, o sono, a vigília, a fome, o regresso. não sei ainda se o fiz. mas uma coisa eu sei: o fogo não é feito de silêncio.

investi as minhas férias no esforço de alcançar todos os dias as consequências das mais altas chamas. o dinheiro, esse, quase não o havia e o que havia foi investido quase todo em gasolina: sempre a combustão. um corpo cansado dorme em qualquer lado e nunca reclama, umas noites “dormi” na mata e as restantes no banco de trás do meu querido carro. a comida, essa, raramente era preciso mais do que o necessário. o bem mais precioso foi a água, não para o banho (luxo desnecessário. bastou um em duas semanas), mas sim para beber e para apagar o fogo.

fotografei um funeral. entrei em casas destruídas, vi como uma casa inteira desaparece e passados dias o chão ainda arde. bati à porta de pessoas e não estava preparado, para encontrar numa delas, uma senhora deprimida que não falava, apenas chorava sem esperança. fotografei um senhor de idade que vivia sozinho que perdeu tudo, não teve tempo sequer para salvar cerca de 500€, o seu único dinheiro que estava escondido dentro de casa. a GNR obrigou-me a identificar devido ao meu aspecto ser dúbio. fui expulso de uma pequena localidade, o medo sempre fez sobressair o melhor ou o pior de todos nós. recusei-me sempre a pensar que tudo aquilo não me pertencia, recusei-me sempre a ser espectador nos momentos mais críticos. teria sido um erro enorme não pensar que eu não fazia parte dos acontecimentos.

sei que falhei o trabalho, não fui capaz de ser um porta-voz daquela gente toda sem voz. e sei quais as causas de não ter sido bem sucedido: precisava de ter-me entregue mais, muito mais. ter-me entregue sem pensar no carro e no local onde eu o tinha largado na estrada. precisava de não ter estado preocupado com o equipamento que tanto me tem custado a comprar. precisava de uma carteira de jornalista para poder passar pelas barreiras policiais que ficavam sempre a quilómetros das frentes de fogo.

© 2005, direitos reservados ao autor nelson d'aires

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