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Trabalho disponível para venda em Olho Negro:
"O que é ou não é agressivo é uma questão cultural" que dor transporta cada um destes homens dentro de si, para se submeterem em conjunto à morte? que mentira terá sido sussurrada ao ouvido de cada um deles para correrem todos eles deste modo à procura do massacre? que parente comum lhes terá morrido de fome em todos eles? os gritos. sempre os gritos como engodo. todos querem para si o fluxo da violência, todos eles anseiam à vez pegar nas rédeas do caos e disseminar o pó da raiva no dorso dos homens que estão de mãos vazias e que se encolhem à passagem do bafo quente e muscular do sangue em explosão. qual a terra de onde foram expulsos? qual o peso das pedras que cada um deles traz agrilhoada a uma das pernas? quais os nomes dos rios a que estão destinadas todas aquelas pedras? a correria. os rostos liquefeitos. a carne a descolar dos ossos. que amor terão todos eles abandonado para assim morrerem por nada?
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English | Português
For countless ages now, every Wednesday before Corpus Christi at seven in the evening a bull is set free on the streets of Ponte de Lima. It all starts at Casa do Conde de Aurora. The bull sets off from the pen where it had been since the day before. Seven experienced men hold it on three ropes and lead it to the Main Church. In the churchyard, one of the men climbs up to the iron window bars on the bell tower and ties the bull with one of the ropes. Tightly held against the wall, the bull is then showered and teased with red wine. After that, one of the ropes is set loose and the men take the bull around the church three times – with a mob of people tripping and stumbling and running from the bull. From the Main Church, the bull is taken to Largo de Camões, the place of the local fountain, where another tradition says the least aware among the people are forced to bathe. After that, it is for the common folk to hold the bull’s ropes – and mayhem follows, on the sandbanks of the Lima river, where everything becomes confused and unpredicted. Those who hold the ropes now are inexperienced, and often no one is holding the bull, which is left to its freedom. This is also the moment when one must be the most cautious, for someone is always trying to make others stumble on the ropes: there is no room for distraction on the sand, and the apparent fatigue of the bull should not be overlooked. After shooting one of the photographs, I found myself only a few steps from the bull’s head – and run was all I could do, though a sandy gravel ground causes your fall and fear stops you from looking back. To look back is to waste time, even when you are running from an imminent strike on your back. At dusk, the bull is led back to the pen. If it were only for the folk, the bull would not leave. As far as I could see, they would tire it out completely – and only then would the folk be satisfied and stop. At dusk is also when the folk start to wander the streets of Ponte de Lima. Through the night, the adrenalin of the early evening is to be drowned in beer and wine. Thousands of people, not just from around the town but from all over the country, crowd the streets – the shadow of the bull cast over the stumbling of the human mob. The photographs in this viewing were taken only at the end of the day, when the people were chasing the bull. Only at home, while developing and make prints from the negatives, was I able to best recall the mob, the yelling, the sweat, the dust, the imprudence, the guts, the runaway, the blood. The text introducing this series refers only to Man in the mob (in this case, a specific mob with a specific goal), not to Man in tradition. Há anos sem conta que todas as quartas-feiras em véspera de Corpo de Deus, às sete horas da tarde, um touro é libertado pelas ruas de Ponte de Lima. Tudo começa na Casa do Conde de Aurora. Preso por três cordas, o touro sai do touril, onde fora colocado no dia anterior, conduzido por sete homens (preparados para o efeito) em cada ponta das cordas em direcção à Igreja Matriz. Aqui, um dos homens sobe à janela de ferro da Torre dos Sinos e passa uma corda pelas grades para prender o touro até este ficar encostado à parede para receber um banho de vinho tinto. O vinho espicaça o touro e então é retirada uma das cordas para depois, com o touro, os homens darem três voltas à Igreja Matriz, onde a multidão tropeça e se atropela ao fugir à frente do touro. Da Igreja, o touro é conduzido para o Largo de Camões onde se encontra o chafariz que serve também para o tradicional banho forçado a todos os distraídos. De seguida, as cordas são entregues ao povo, que delira com o touro no areal junto à margem do rio Lima. É aqui que tudo se torna imprevisto, pois quem está na ponta das cordas é inexperiente e não há coordenação, sendo que muitas vezes não está ninguém com as cordas e o touro tem liberdade total. É também aqui que é preciso ter cuidado, porque há sempre quem tente fazer tropeçar alguém com as cordas; no areal não há lugar para distracções e o aparente cansaço do touro não deve ser menosprezado. Eu próprio após ter feito uma fotografia vi-me de repente a escassos metros em frente ao touro e fugir era tudo o que podia fazer – mas uma fuga em chão de gravilha origina quedas e o medo não nos faz olhar para trás. Olhar para trás é perder tempo, mesmo quando se foge esperando a qualquer momento levar uma marrada nas costas. Ao anoitecer, o touro é recolhido por quem o largou para o touril de onde saiu. Pelo povo, o touro não seria recolhido. Do que observei, o touro poderia morrer de cansaço – só isso os faria parar. É também pelo anoitecer que o povo é entregue às ruas de Ponte de Lima. Durante toda a noite a adrenalina do final de tarde é afogada na cerveja e no vinho. Milhares de pessoas, vindas não só do Minho mas também de todo o país, entopem as ruas, sempre com a sombra do touro presente nos tropeções que a massa humana gera. As fotografias que vos apresento são só do final da tarde, com o povo a perseguir o touro e não o contrário. Foi depois, em casa, ao revelar e ampliar os negativos, que me fui recordando melhor a massa humana, os gritos, o suor, o pó, a imprudência, a valentia, a fuga, o sangue. O texto que serve de introdução a esta série de fotografias fala apenas do Homem nas massas (neste caso, uma massa específica com um propósito específico) e não do Homem na tradição. |
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